Laboratório Químico-Prático

O Laboratório Químico-Prático foi criado pelo decreto de 25 de janeiro de 1812, com o objetivo de analisar os produtos naturais extraídos dos domínios ultramarinos, visando seu emprego nas artes, comércio e indústria, contribuindo assim para a prosperidade do Reino. O órgão ficava sob a inspeção do ministro e secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos, que dava as instruções para trabalhos e operações, relatando ao rei os resultados dos processos com as observações analíticas e as descrições necessárias para se poder tirar vantagens e interesses nacionais em sua aplicação prática. Essa subordinação era explicada pela origem dos materiais pesquisados, que eram provenientes de todas as colônias portuguesas nos diversos continentes.

O século XVIII marcou o nascimento da química moderna, baseada nos estudos de Lavoisier. A criação de laboratórios químicos e de outros locais destinados à catalogação e investigação da natureza, como gabinetes e museus de história natural, esteve relacionada ao processo de secularização e valorização do conhecimento da natureza voltado para fins utilitários, marca da Ilustração na Europa. Em Portugal, essa visão pragmática da natureza recebeu maior atenção com as reformas preconizadas por Sebastião José de Carvalho e Melo, depois marquês de Pombal, ministro de d. José I. Entre outros empreendimentos oficiais, instalaram-se jardins botânicos e o Museu de História Natural no Palácio Real da Ajuda. Em 1772, após a reforma do ensino, foi criada uma aula de química na Universidade de Coimbra, na Faculdade de Filosofia, para onde, em 1804, seria transferido o Laboratório Químico de Lisboa, fundado em 1801. No reinado de d. Maria I, em 24 de dezembro de 1779, foi instituída a Academia Real de Ciências, espaço de investigação e divulgação do saber científico.

Com a transferência da corte para o Brasil, várias instituições científicas foram inauguradas com essa mesma finalidade utilitária. A química recebeu atenção com o estabelecimento de aulas na Academia Real Militar, na Escola Médico-Cirúrgica da Bahia e na Academia Médico-Cirúrgica do Rio de Janeiro. Seu aspecto prático foi estimulado com a instalação do Laboratório Químico-Prático, em 1812, e do Laboratório de Química, em 1819, a partir da incorporação do laboratório particular do conde da Barca (SANTOS, 2004a, p. 345).

O funcionamento do Laboratório Químico-Prático, situado em frente à Capela do Espírito Santo, no bairro de Mata-Porcos, seguiu o modelo do que existia na Universidade de Coimbra, contando com um “dispensatório farmacêutico”, onde eram vendidos os produtos químicos e preparados os medicamentos para as boticas dos hospitais da Real Armada e presídios (RHEINBOLDT, s.d., p. 25). O decreto de 26 de fevereiro de 1812 marcou os vencimentos do diretor, o bacharel Francisco Vieira Goular.

Um documento manuscrito intitulado Ensaio histórico-analítico das operações do Laboratório Químico-Prático do Rio de Janeiro, de autoria e data desconhecidas, relata as atividades deste laboratório, voltadas para o desenvolvimento da indústria e o aprimoramento de produtos destinados ao comércio. Entre seus empreendimentos, inclui-se a análise de materiais como o pau-brasil, que poderiam servir para a troca por gêneros chineses, a cultura da papoula e o preparo do ópio, o exame de madeiras para a procura de novas cores, a análise das águas da Quinta das Laranjeiras e experiências com bebidas fermentadas, além das tentativas de aprimorar e simplificar o processo de produção do sabão, de eliminar o “mau cheiro” da aguardente de cana e de preparar, artificialmente, água sulfurosa (SANTOS, 2004a, p. 345-347).

Oficialmente, não houve regulamentação das atividades e da estrutura do Laboratório Químico-Prático, apenas a criação do cargo de fiel, em 27 de junho de 1812. Em 1819, no entanto, o decreto de 22 de dezembro suspendeu as atividades do Laboratório, reconhecendo as dificuldades enfrentadas na sua organização e sistematização, e determinando que os instrumentos fossem entregues, por inventário, em um depósito designado pelo ministro e secretário dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos.

Angélica Ricci Camargo


Bibliografia

FARIAS, Robson Fernandes de. História da química no Brasil. Campinas: Átomo, 2004.

FERRAZ, Márcia Helena Mendes. Ciência química. Revista do IHGB, Rio de Janeiro, v. 163, n. 416, p. 275-281, jul.-set. 2002.

GONÇALVES, Ayrton Luiz. Difusão da química no Brasil (1808-1934). Rio de Janeiro: Sobrerodas, 1993.

RHEINBOLDT, H. A química no Brasil. In: AZEVEDO, Fernando de (coord.). As ciências no Brasil. Rio de Janeiro: Melhoramentos, 1955, v. 2. p. 9-108.

SANTOS, Nadja Paraense dos. Laboratório Químico-Prático do Rio de Janeiro: primeira tentativa de difusão da química no Brasil (1812-1819). Química Nova, São Paulo, v. 27, n. 2, p. 342-348, 2004a. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-40422004000200030. Acesso em: 22 maio 2008.

______. Nadja Paraense dos. Os primeiros laboratórios químicos do Rio de Janeiro. In: ENCONTRO REGIONAL DE HISTÓRIA, ANPUH-RJ, 11., 2004. Rio de Janeiro: ANPUH, 2004b. Disponível em: http://www.rj.anpuh.org/Anais/2004/Simposios%20Tematicos/Nadja%20Paraense%20dos%20Santos.doc. Acesso em: 22 maio 2008.

Referência da imagem

Laboratório.OR 1896. Encyclopedie, ou, Dictionnaire raisonne des sciences, des arts et metiers, par une Societe de Gens de lettres. Paris: Briasson, 1751-1780, v.2.