Museu Real

O Museu Real foi criado pelo decreto de 6 de junho de 1818, com a finalidade de “propagar os conhecimentos e estudos das ciências naturais no Reino do Brasil, que encerra em si milhares de objetos dignos de observação e exame, e que podem ser empregados em benefício do comércio, da indústria e das artes”. Para seu estabelecimento foi adquirida pela Coroa, através do mesmo decreto, uma casa oferecida pelo influente comerciante João Rodrigues Pereira de Almeida, futuro barão de Ubá, no Campo de Santana, Rio de Janeiro. Seu primeiro diretor foi o botânico e mineralogista frei José da Costa Azevedo, professor da Academia Real Militar.(MUSEU Real, s.d., 2008)

Na Europa, durante o século XVIII, a criação de museus de história natural, jardins botânicos, gabinetes e laboratórios voltados para a catalogação e análise dos elementos naturais esteve relacionada à concepção da natureza como fonte de riqueza e saber, característica da Ilustração. O estudo da história natural em seus diversos ramos, como botânica, mineralogia e zoologia, visava à descoberta de uma aplicação prática, como o uso medicinal das plantas ou o aproveitamento de novas minas.

Em Portugal, estas tendências tomaram impulso com as reformas conduzidas por Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro marquês de Pombal, que, além de renovar o sistema de ensino, criou instituições científicas com o objetivo de fomentar a prosperidade a partir do conhecimento e exploração dos recursos naturais, considerados fundamentais para a revitalização da economia. Entre as práticas incentivadas pela Coroa portuguesa estiveram o apoio a viagens naturalistas, com o objetivo de coletar materiais que depois se destinariam à investigação ou formariam a coleção do Museu Real da Ajuda em Lisboa, e uma política de aclimatação de plantas e animais em todas as colônias portuguesas (FIGUERÔA; SILVA; PATACA, 2004; BITTENCOURT, 2000, p. 115; MUNTEAL FILHO, 2000, p. 145).

Nos anos seguintes, já durante o reinado de d. Maria I, a comunidade reformista-ilustrada ficou congregada na Academia Real de Ciências, fundada em dezembro de 1779 como espaço científico e literário responsável por abrigar as modernas concepções de ciência. Ali se reuniam não só homens ligados às reformas pombalinas, mas também o grupo antipombalino, conduzido por lideranças políticas da “viradeira”. Seus membros mantinham correspondentes nas colônias, que recebiam instruções sobre os procedimentos de observação, recolha, preparo e remessa do material para Portugal. Além das iniciativas oficiais, proliferaram também nesse período as sociedades literárias, academias e outros espaços de divulgação e troca de conhecimento científico (MUNTEAL FILHO, 2000, p. 146-156).

No Brasil, durante o período colonial, o vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa promoveu viagens e levantamentos naturalísticos, como a expedição do padre José Mariano da Conceição Velloso entre os anos de 1783 e 1790. Seus sucessores continuaram essa política e, a partir de 1796, essas viagens ganharam um novo caráter, tendo o objetivo de complementar os dados que já haviam sido recolhidos e estavam sendo sistematizados para publicação. No mesmo ano foi instalado um jardim botânico em Belém no Pará e, um pouco antes, em 1784, uma casa de história natural no Rio de Janeiro, conhecida como Casa dos Pássaros, que abrigava minerais e animais vivos e empalhados. A Casa funcionaria até 22 de junho de 1813, quando a decisão n. 20 mandou extinguir seus empregos, transferindo o acervo de mineralogia e história natural para a Academia Real Militar. Houve ainda a organização de associações científicas, como a Academia Científica de Rio de Janeiro, de 1771, e a Sociedade Científica do Rio de Janeiro, depois Sociedade Literária, em 1786 (FIGUERÔA; SILVA; PATACA, 2004; FONSECA, 2000, p. 127).

Com a transferência da corte para o Brasil, em 1808, montou-se todo um aparato administrativo indispensável para a nova sede do Reino português, inclusive instituições culturais e científicas. Nesse contexto, foram estabelecidos os cursos de medicina da Bahia e do Rio de Janeiro, a Academia Real Militar, a Biblioteca Real, o Jardim Botânico, o Laboratório Químico-Prático e o Museu Real. Houve também, a partir de 1815, a permissão da entrada de expedições científicas estrangeiras, como a do barão de Langsdorff, a do príncipe da Baviera Maximiliano I, a de Charles Othon Fréderic Jean Baside, membro da comitiva do duque de Luxemburgo, que trouxe o botânico Auguste de Saint-Hilaire, e as missões austríaca e bávara, esta dirigida por Spix e Martius, que vieram após o casamento da arquiduquesa da Áustria com o príncipe herdeiro (SCHWARCZ, 2002, p. 332-334).

Nesse contexto, o acervo do Museu Real constituiu-se inicialmente da coleção de objetos naturais, de arte e artefatos indígenas adquirida do mineralogista alemão Abraham Gottlob Werner e trazida ao Brasil por Antônio Araújo de Azevedo, o conde da Barca, além de itens antigos doados pela nobreza. O museu teria incorporado também o Gabinete dos Instrumentos de Física e Matemática que, em Lisboa, dividia espaço com a Biblioteca Real na igreja dos Terceiros do Carmo. Mais tarde passou a receber materiais de todas as capitanias e de outros continentes (CUNHA, 1981, p. 133; SILVA, 1977, p. 144).

O museu era também responsável pela análise das aplicações práticas dos produtos naturais e com isso o decreto de 11 de maio de 1819 mandou que a ele ficasse anexo o Jardim Botânico, localizado próximo à lagoa Rodrigo de Freitas.

Posteriormente, o decreto de 26 de fevereiro criou o lugar de Inspetor-geral dos Estabelecimentos Literários e Científicos do Reino, ocupado por José da Silva Lisboa, depois visconde de Cairu, colocando o museu sob sua inspeção. A decisão n. 69, de 24 de outubro do mesmo ano, facultou ao público a entrada no Museu Real às quintas-feiras, promovendo o papel educacional característico dessa instituição (MUSEU Real, s.d., 2008; BITTENCOURT, 2000, p. 114). No entanto, a primeira regulamentação específica sobre o museu, dispondo sobre sua organização e administração, só foi promulgada por decreto de 3 de fevereiro de 1842


Angélica Ricci Camargo


Bibliografia
BITTENCOURT, José Neves. Iluminando a colônia para a corte: o Museu Real e a Missão Francesa como marcos exemplares da política de administração portuguesa no Brasil. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL D. JOÃO VI: um rei aclamado na América, 1999, Rio de Janeiro. Anais… Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, p. 114-122, 2000.

CUNHA, Lygia Fonseca da. Subsídios para a história da Biblioteca Nacional. Anais da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, v. 101, p. 125-148, 1981.

FIGUERÔA, Sílvia F. de M.; SILVA, Clarete Paranhos da; PATACA, Ermelinda Moutinho. Aspectos mineralógicos das “Viagens Filosóficas” pelo território brasileiro na transição do século XVIII para o XIX. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 11, n. 3, p. 713-729, 2004. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702004000300009. Acesso em: 23 maio 2008.

FONSECA, Maria Rachel Fróes da Fonseca. O associativismo no Brasil (1771-1829) e a promoção das ciências e da felicidade da nação. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL D. JOÃO VI: um rei aclamado na América, 1999, Rio de Janeiro. Anais… Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2000, p. 123-139.

LOPES, Maria Margarete. Viajando pelo campo e pelas coleções: aspectos de uma controvérsia paleontológica. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 8, p. 881-897, 2001. Suplemento. Disponível em: http//www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702001000500005&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt. Acesso em: 23 maio 2008.

MUNTEAL FILHO, Oswaldo. O rei e o naturalista. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE D. JOÃO VI: um rei aclamado na América, 1999. Anais… Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2000. p. 140-160.

MUSEU Real. In: Dicionário histórico-biográfico das ciências da saúde no Brasil (1832-1930). Disponível em: . Acesso em: 23 maio 2008.

SANJAD, Nelson. O lugar dos museus como centros de produção de conhecimento científico. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL MUSEUS, CIÊNCIA E TECNOLOGIA, 2006, Rio de Janeiro. Museus, ciência e tecnologia. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2007. p. 123-133.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. A longa viagem da biblioteca dos reis: do terremoto de Lisboa à independência do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Cultura e sociedade no Rio de Janeiro (1808-1821). São Paulo; Brasília: Companhia Editora Nacional, 1977.


Documentos sobre este órgão podem ser encontrados nos seguintes fundos do Arquivo Nacional:

BR AN, RIO 92 – Série Educação – Cultura – Belas-Artes – Bibliotecas – Museus (IE7)
BR AN, RIO 2H – Diversos SDH – Caixas
BR AN, RIO 8M – Série Agricultura: Administração – IA2
BR AN,RIO 22 – Decretos do Executivo – Período Imperial
BR AN,RIO KE – Publicações Oficiais – Acervo Geral e Periódicos


Referência da imagem
Artefatos indígenas.  STENEN, Karl Von Den. Durch Central-Brasilien: expedition zur Erforschung des Schingú in jahre 1884. Leipzig: F. A. Brockhaus, 1886, p. 322. OR 1494